Um ônibus de linha que partiu de Foz do Iguaçu (PR) com destino a Florianópolis foi escoltado pela Receita Federal até a sede do órgão após uma denúncia sobre produtos contrabandeados a bordo, incluindo canetas emagrecedoras. Após duas horas de buscas, além de mercadorias irregulares avaliadas em mais de R$ 300 mil, foram apreendidas dezenas de ampolas de emagrecedores paraguaios à base de tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.
Uma passageira, moradora de Foz, disse à polícia que os eletrônicos que levava não eram seus, mas sim da pessoa que a contratou. As chamadas “mulas do contrabando” recebem valores conforme a carga e a eficiência para driblar a fiscalização. Uma mula experiente recebe pelo menos R$ 500 para ir ao Paraguai e voltar com a mercadoria, valor que pode subir conforme o risco.
Viajantes envolvidos em grandes apreensões de canetas emagrecedoras têm sido indiciados por crime contra a saúde pública, além de contrabando. A condenação por crime contra a saúde pública pode resultar em pena de 10 a 15 anos de prisão, enquanto o contrabando prevê reclusão de 2 a 5 anos. O superintendente da PRF no Paraná, Fernando César Oliveira, destaca os riscos dos medicamentos sem procedência e com transporte precário, sem refrigeração adequada.
Embora proibidos no Brasil, esses medicamentos são fabricados por laboratórios paraguaios e registrados na autoridade sanitária do país vizinho, a Dinavisa. A farmacêutica Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, afirma que o medicamento exige controle rigoroso de temperatura em toda a cadeia, e que produtos fora dos canais autorizados expõem os pacientes ao risco de contaminação ou ineficácia.
Oliveira afirma que há uma migração das mulas do contrabando, que estariam deixando de transportar cigarros eletrônicos para levar canetas emagrecedoras, que ocupam menos espaço e são mais lucrativas. Dados da PRF mostram que o Paraná liderou o ranking de apreensões de medicamentos nas rodovias federais no ano passado, com 22.975 unidades apreendidas, seguidas por São Paulo (17.888) e Goiás (13.731).
Uma das mulas, que teve três desktops apreendidos, relatou ter recebido R$ 500 pelo transporte e R$ 150 para alimentação. Outra passageira, de Curitiba, que viaja duas vezes por semana ao Paraguai, recebe R$ 400 por deslocamento, totalizando R$ 3.200 por mês, valor que ela considera superior a qualquer emprego CLT.
Em uma operação na BR-277, em Santa Terezinha de Itaipu (PR), agentes da Receita Federal encontraram 2.210 unidades de medicamentos emagrecedores escondidos em um fundo falso de um veículo SUV. O compartimento só foi descoberto após a remoção das duas rodas traseiras e de todo o revestimento. A carga foi avaliada em R$ 420,9 mil. No fundo falso também foram encontrados peptídeos e ampolas de retatrutida, medicamento ainda em fase de estudo. O motorista foi preso em flagrante.
Dias depois, outra fiscalização encontrou R$ 250 mil em canetas paraguaias escondidas em outro veículo, em compartimento semelhante. O motorista afirmou que receberia 10% do valor transportado como pagamento. Oliveira afirma que são cargas valiosas, com alto lucro, que ocupam pouco espaço e são de fácil revenda, e que enquanto for fácil comprar no Paraguai e vender no Brasil, a fiscalização fica “enxugando gelo”.
